24 de fevereiro de 2010

O carnaval, o turismo e o Rio de Janeiro

O Globo, 17/02/10
Artigo do leitor Bayard Do Coutto Boiteux

Ao falarmos em carnaval no Rio de Janeiro devemos vislumbrar dois momentos: antes e depois do Sambódromo. A obra arquitetônica do gênio Oscar Niemeyer permitiu uma revolução no carnaval carioca. Era o primeiro carnaval do governo Brizola, já que o prefeito ainda era indicado por ele e várias polêmicas surgiram: desde a divisão dos desfiles em dois dias até a conclusão da obra em tempo para o evento.

A nova era dos desfiles trouxe pontos positivos, como uma estrutura pronta anualmente para as apresentações carnavalescas, que depois foi copiada em vários estados como São Paulo e Amazonas, mas tornou o espetáculo mais frio e cada vez mais distante do conceito inicial de desfile das escolas de samba.

Hoje, o luxo e os gastos são tão elevados que demandam grandes patrocinadores e verbas governamentais, que acabam inibindo a criatividade e fazendo apologia daqueles que de alguma forma ajudam. É um carnaval diferente, dos camarotes das cervejarias, mas com muito menos glamour e personalidades estrangeiras, haja visto que Madonna em fase de aposentadoria passou a ser o grande chamariz do atual carnaval.

No entanto, com início na gestão do ex-prefeito Cesar Maia, o carnaval de rua tem se fortalecido e em 2010 foram mais de 350 blocos em toda a cidade, gerando uma alegria e uma animação nunca vistas antes. O problema foram os "mijões" e "mijonas", que sem a menor vergonha continuaram urinando em todos os cantos da cidade, já que infelizmente não havia a presença efetiva do poder público para inibir tais atos obscenos. Aliás, o carnaval tem se mostrado a cada ano uma festa que começa a sentir o gosto popular das antigas marchinhas e os grandes bailes são revigorados, como o do Copacabana Palace.

A Cidade Maravilhosa foi invadida por turistas estrangeiros e nacionais. A ocupação hoteleira chegou perto de 92% em vários bairros da cidade e na pesquisa realizada pela Planet Work durante o evento ficou claro que a maior parte dos turistas é oriunda da Europa e EUA e, do Brasil, de São Paulo, Minas, Espírito Santo e Sul do país.

Mas continuam as reclamações quanto à presença reduzida de policiais e guardas municipais nos bairros turísticos, a sujeira da cidade, a falta de informação turística e o caos do metrô, que era considerado exemplar. Os resultados finais serão conhecidos durante a semana, mas os primeiros indicadores nos apontam para políticas efetivas de apoio ao turismo e não marketing eleitoreiro em camarotes oficiais e intervenções pseudo-turisticas, para causar impactos na imprensa e factóides.

O carnaval é o segundo evento mais importante da cidade, depois do réveillon, e está sendo revigorado. Mas a cidade precisa olhar melhor para os que nos visitam. Um olhar mais comprometido, já que no carnaval mais de 65% dos turistas vieram por conta própria e sentiram mais uma vez a precariedade do Rio para o novo consumidor turístico. Esperamos que 2010 não seja um ano de batalhas políticas, mas de análise pontual do novo turismo que devemos implantar, da nova realidade experimental que nossos consumidores buscam e não pensar que as belezas naturais e alegria da população são suficientes.

O Rio, o carnaval e o turismo andam juntos, mas ainda dissociados de uma realidade necessária para uma cidade melhor, em que o turismo possa ser uma ferramenta de mudança e melhoria de vida da população anfitriã e não apenas uma alegria desenfreada que acaba na Quarta-feira de Cinzas...

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